De volta...
E de repente passaram 3 anos e em 3 anos deixei de vir aqui. Percebi, com algum espanto e tristeza, de que fui deixando de escrever. De escrever com tempo, com calma, com empenho. Escrevo mil mensagens, alguns comentários, muitas partilhas mas tudo em modo telegráfico, muitas palavras (demasiadas) de forma abreviada e, espanto, por vezes a ter de pensar mais do que alguns segundos, de como se escrever aquela palavra. Num mundo tão digital, tão ligado e demasiado 'em direto', parece que deixou de fazer sentido simplesmente escrever. As fotografias falam por si e se não publicamos, corremos o risco de esquecer, de parecer que não foi importante ou que não merece o destaque nos destaques. Dou por mim com muitas saudades de simplesmente escrever. Sem ter a preocupação que siga uma linha cronológica ou que tenha de ser sobre o 'agora'; simplesmente escrever. Obrigar-me a parar, a ter este tempo entre mim e as palavras, entre mim e o que me apetecer simplesmente escrever. Seja porque me importa, seja porque me quero não esquecer, seja porque escrever continua a ser uma terapia. A forma talvez mais solitária de registar, de escolher palavras, de poder apagar e reescrever, de poder simplesmente escrever. Sem o medo do julgamento, da crítica, da forma como pode ser lido ou sentido. Não por ser egoísta. Simplesmente porque escrever ajuda a libertar o que vai dentro. Escrever ajuda a ter tempo. Escrever exige pensar. Dou por mim com saudades de simplesmente escrever porque escrever deixou de ser simples. Ou talvez tenha ficado demasiado simples, num registo em que não me revejo por achar cada vez mais artificial, mais supérfluo, sem objetivo a não ser o de partilhar para mostrar - mas mostrar o quê?! Um momento que foi bonito, um fotografia em que estamos bem, uma viagem especial, um concerto ou uma peça de teatro, uma oração, uma conquista... o mundo tem mesmo de saber? Ou será que só quem é o meu mundo precisa de saber? Sinto-me dividida entre o registo puro, para mais tarde recordar; e entre a necessidade (tantas vezes inconsciente) da vaidade, de mostrar e partilhar o lado bom. Quem viveu, quem passou vai certamente reconhecer o que representa, mas nem todos o podem fazer e é por isso que me soa a vazio.
Regresso por isso à escrita. Ao obrigar-me a pensar nas palavras, a ter tempo para escolher as palavras. A escrevê-las, a ordená-las, a fazer o registo do que de alguma forma me vai moldando.
E em 3 anos as voltas que a vida já deu!!!!
Troquei de casa - da casa em que nunca pensei sair; passei por todo um processo de remodelação de uma casa que, aos poucos, se está a tornar a nossa casa de sonho;
Tenho filhas mais altas do que eu;
O meu irmão casou! A festa de casamento mais animada de sempre!
Fizemos a nossa viagem de sonho em família - Clã Vaz - aos Estados Unidos;
A minha irmã foi operada ao cérebro, numa cirurgia de mais de 6h em que boa parte esteve de estar acordada; uma recuperação assustadoramente feliz;
Os pais a envelhecer, numa luta de resiliência e amor diária;
Deixei de trabalhar a 10min de casa, para passar a enfrentar as dores do trânsito; ainda que o teletrabalho continue a fazer a alegria da minha semana;
Reforcei amizades de sempre, que estão hoje certas no 'para sempre';
Voltei a Londres, a ficar na casa dos amigos que me fazem sentir em casa, com as loiras iluminadas da minha vida;
Continuo a ser presidente da Associação de pais da escola de uma das minhas filhas, sinto que com menos entusiasmo, mas com igual sentido de missão;
Ajudei a organizar várias atividades na minha paróquia, que me faz sentir tão útil, apesar de tantas vezes frustada... numa luta tantas vezes inglória de querer fazer mais e melhor mas olhar em volta e sentir poucos (ou nenhuns) progressos;
Vejo as minhas filhas cada vez mais crescidas, mais envolvidas nas atividades e amizades que têm aprendido a cultivar;
A Carlota é Guia dos Guias na Expedição; a Constança está mais do que nunca comprometida em ser Pioneira que consegue bater recordes (em breve terá um raid que ajudou a organizar, para andar quase ou perto de 50km a pé);
Tenho uma filha já no secundário, que já saiu pela 1ª vez à noite - apesar de ser 'logo ali', já me soou a emancipação, ao princípio do fim da era em que controlava tudo;
Tenho 2 filhas no programa Pós-Crisma, que merece todo um texto para explicar o que é e como tem tido um papel especial no crescimento dos jovens aqui da paróquia, em especial no efeito magnético que tem conseguido com as jovens aqui de casa;
Fui escolhida para madrinha de Crisma da Matilde e este ano do Vasco. Sendo que a Raquel foi a escolhida da Carlota para madrinha; e sendo que me tornei madrinha de todos os filhos da Dora - também merece um texto só sobre este tema;
Os meus pais celebraram 50 anos de casamento e conseguimos a proeza de ir todos - mesmo todos - à igreja da aldeia renovar votos. Uma festa simples mas tão, tão especial;
Estive no Marquês de Pombal a festejar Sporting Campeão com a minha filha sportinguista de alma e coração;
Fui a Fátima a pé não uma, mas já duas vezes. Uma experiência que vou repetir este ano, num ato de fé mas acima de tudo de gratidão, de amparo e de resiliência.
E tantas outras coisas que me foram passando, marcando, moldando e acrescentando.
Vou voltar aqui, onde a escrita me faz sentir eu.

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