Quando a morte espreita...

Sabemos que um dia acontece mas tentamos não pensar (muito ou nada) nisso. Não estamos preparados para a morte, nem para o seu anúncio. Preferimos focar a atenção nos problemas, nas doenças, nas rotinas, nos porquês mas nunca, ou muito raramente, paramos para aceitar o inevitável. Seja pela doença, seja pela idade, seja pela força das circunstâncias, por tudo ao mesmo tempo ou simplesmente por uma fatalidade, consegue sempre, e ainda assim, chocar. É assunto tabu, sobretudo com as crianças, que vivem cada vez mais em bolhas que os levam a viver uma vida sem sacrifícios sentidos, sem angústias sérias, sem contrariedades - todas absorvidas pelos pais que na vã tentativa de os proteger de tudo o que magoa, de tudo o que dói bem fundo, de tudo o que deixa marcas, os transformam em pessoas que se acham invencíveis e indestrutíveis, qual super-heróis. Que os leva a dar tudo por garantido, incluindo o bem mais precioso que todos temos - a vida. Acham que os avós, os pais, os tios, os amigos vão estar sempre ali. Raramente se vê crianças em funerais, qual antro de choro e tristeza, capaz de traumatizar uma alma inocente e pura. Vivemos a dor, disfarçamos a dor, vivemos com a dor, mas tentamos não a partilhar, sobretudo com os filhos para que não sofram connosco. Quando o assunto surge mudamos de assunto ou divagamos com teorias da estrela no céu... não tenho a solução ideal porque qualquer que seja a estratégia que siga o tema, só por si, entristece. Porque perder alguém que amamos custa sempre muito mas saber que estamos na iminência que isso aconteça... entristece mais ainda. 
A minha avó de 95 anos está doente - a cada dia mais doente. São muitos anos de vida e de uma vida de muito trabalho, de muita força, de muita coragem. Uma vida cheia de provações mas felizmente rodeada pelos filhos e netos - uma casa cheia que viu crescer, com orgulho discreto mas acredito que muito sentido. Chegar aos 95 anos sem ter chorado a morte de um filho já é uma grande vitória. Chegar aos 95 anos e ter conhecido 20 netos e outros tantos bisnetos também não é para todos! Estamos agora a testemunhar o fim de um ciclo de vida, a assistir ao definhar de um corpo que se cansou de funcionar, a uma mente lúcida que se cansa de sofrer a cada dia que passa. Só mesmo a Fé para nos guiar neste caminho sem volta, para nos preparar para o beijo da morte... 

1 comentário:

paula disse...

Percebi perfeitamente cada linha que escreveste...a idade não importa, não consegue minimizar a dor da partida, 95 anos...é certo, já viveu muito, para a família e amigos nunca o suficiente! Quando dizes que nunca chorou a morte de um filho estás a dizer o mais importante e de certeza o que ela mais pede sempre que a idade avança...que nenhum filho parta antes de si.

"Afirmam que a Vida é breve,
Engano - a Vida é comprida:
Cabe nela Amor eterno
E ainda sobeja Vida." Fernando Pessoa

Beijinho grande
PJ